art3ria

Atravessei a Praça da Sé no final da tarde desse sábado, a escadaria da catedral estava cheia de homens sentados sem ter o que fazer. Apesar que estarem ali sentados pode ser um ato em si… Enfim… Faltavam poucos minutos para as 5 da tarde e me apressei pra ver as exposições na Caixa Cultural. A primeira delas tem o grande antropólogo Gilberto Freyre sendo visto como pintor e cartunista. Fiquei meio mal em ver aqueles óleos sobre tela com imagens primárias; não há qualquer data, o que não pra saber se aquelas pinturas eram de um olhar juvenil ou as primeiras pinceladas de um  cientista. Mas as charges que ele desenhou e estão lá expostas são muito boas e engraçadas, inclusive se auto-retratando com amigos célebres. O mais legal mesmo são os livros orginais, primeiras edições de estudos sobre a formação da civilização brasileira, como as receitas de doces no livro “Assúcar” e o best-seller “Casa grande e senzala”.

Daí surpresa no segundo andar com a poesia visual, ou “intersemiótica”, na mostra dos 40 anos da revista Artéria. Lembro que no Sesc Pompeia tem a retrospectiva do poeta Augusto de Campos, o que pode ser um bom contraponto ou complemento para esta “Artéria – 40 anos” e nossos devaneios e derivas pela concret jungle concretista. Artéria é a cara de São Paulo, poesia experimental independente. Cada uma das dez edições tem formato completamente diferente, do papel ao site ou fita K7. A revista foi lançada em 1975 e cada número é uma antologia de poemas de diversos criadores de poesia visual, palavra e imagem que se completam e formam um só signo ou imagem ou poema.

A exposição tem trabalhos curiosos, pop, tridimencionais, conceituais etc., mas a maior parte prima pelo humor, pelo inusitado, pela percepção sarcástica do cotidiano. Diz que são mais de 60 obras, entre serigrafias, adesivos, objetos, vídeos, áudios e plataforma digital interativa, além das 10 edições originais da revista Artéria. Os curadores são os poetas, editores e colecionadores Omar Khouri e Paulo Miranda, que encabeçam a publicação. 

Não conhecia a revista, mas gostei muito dos trabalhos que estão expostos e fluíram pela Artéria nesses tantos anos. Tem poemas ótimos da trinca concretista, Pignatari e os dois irmãos Campos; tem uma foto-poema do Arnaldo Antunes muito boa, onde se vê a armação de um outdoor com apenas a palavra “ver” cobrindo um pedaço pequeno do cartaz, como um ver o que não tem nada pra ser visto; e a hilária coleção de capas de revista do artista/performer Peter de Brito; o “Sopro” trancado de Vanderlei Lopes; e tem Alice Ruiz, Oswald de Andrade, Lenora de Barros, Tadeu Jumgle, Marcelo Tas, Regina Silveira… O melhor é que me diverti muito, dei boas risadas.

Na saída da Caixa Cultural encontrei um ótimo postal com um (providencial) poema de Augusto de Campos intitulado “Profilogramallarmé” (2009), que reproduzo a seguir. E aí, fiquei pensando se eu não soube ler as pinturas do Gilberto Freyre… Será?


 

+++ Vai ter oficina de poesia visual com Gastão Debreix, lançamento da revista Artéria número 11 e performance de Lúcio Agra >>> dia 18 de junho! Acessa http://www.caixacultural.gov.br 

 

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